Agridoce - Capítulo 2






Finalmente entrei em meu carro e segui rumo até o meu apartamento. Meu adorado lar. Tinha sorte de não morar muito longe do meu trabalho. O prédio da empresa ficava na marginal Pinheiros. Com aquele trânsito maravilhoso eu levava cerca de 50 minutos para chegar até o meu destino, no Ipiranga.

Gostava muito da localização, tudo que precisava era perto. Mas o real motivo de eu viver lá, era por ser próximo a antiga casa dos meus avós. Fazia 5 anos que eles tinham falecido. Era justo que ficasse comigo, meus pais não a quiseram e eu sempre fui muito apegada aos meus velhinhos.  Lutei na justiça por ela.  Até perceber que os meus tios não me dariam facilmente, decidi comprá-la.  Passei meus momentos mais felizes com o meu pai e meus avós nela, eu gostaria de tê-la para sempre.

Deixei meu carro no estacionamento do prédio e fui para o elevador. Parei no térreo.

- Boa noite – o porteiro sorriu

- Tem algo para mim ?

- Tem essas correspondências senhorita Patrícia – ele a entregou uns envelopes.

- Ok – voltei para o elevador e pressionei o 6º andar.

Estava cansada. Decepcionada. Frustrada. Como pode? 3 anos naquela empresa. 3 anos! Todos sempre elogiavam o meu trabalho. Sempre montei as páginas mais elegantes e conceituais. Ingratos! Eles não encontrariam uma designer como eu tão facilmente. Não poderiam fazer aquilo, tinham que me aceitar do jeito que eu sou.

Liguei meu rádio no volume médio e coloquei “Não sei o que eu quero da vida” da Cássia Eller, adorava suas músicas. Tirei meu salto e comecei a pular. Meu poodle, Bobby veio ao meu encontro. Ele pulava com tanta alegria que decidi pegá-lo. Meu príncipe. Amor da minha vida. Ficamos dançando um bom tempo ali. Eu me sentia ótima. Minha mente limpava de todos os problemas.

Durante minha adolescência sempre ouvia rock pesado, mas gostava mesmo era das músicas da Cássia. Muitos me chamavam lésbica por isso. Mas eu não me importava. Quase não ligava para o que os outros pensavam de mim.

Quando a música acabou coloquei minha fofura no chão e dei ração para ele. Deveria estar com muita fome. Bobby foi abandonado. Quando o encontrei estava magro, fraco e cheio de parasitas. Pensei que fosse um vira-lata. Mesmo assim me sensibilizei, pareceu amor a primeira vista. 

Quando o levei no veterinário, ele ficou impressionado pois nunca tinha visto um cachorro de raça  naquele estado. Após fazer todos os procedimentos necessários levei-o para meu apartamento.

O sindico ridículo  queria me multar por isso. Um animalzinho tão amável não iria incomodar ninguém. Ameacei processá-lo, afinal não havia lei que proibisse ter um bichinho de estimação em um prédio. Até que ele largou do meu pé. 

Garanti que ele não incomodaria ninguém. Cães incomodam muito menos que as pessoas. São companheiros, não nos traem, não nos decepcionam e não nos demitem.

Quando começou a próxima música, estava preparando meu jantar. Amo cozinhar.
Coloquei uma leiteira com água para esquentar. Peguei uma panela média.
Já tinha as cebolas picadas, então apenas coloquei azeite e as refoguei. Amo o cheiro de cebola subindo. Acrescentei a lula refoguei mais um pouco e depois o adicionei o arroz. Abaixei o fogo,  coloquei o vinho. O cheiro estava ficando maravilhoso.

Peguei meu celular e liguei para enfermeira que havia contratado para cuidar de meu pai.

O celular tocou até cair na caixa postal. Liguei novamente.

-  Alô?  - ela bocejou

- Está com sono querida? Espero que não tenha dormido. Eu pago caro pelos os seus serviços – apoiei o celular entre o ombro e o ouvido, continuei, adicionando os mariscos.

- Na verdade eu estava dormindo sim Patrícia, não fiquei com o seu pai hoje.

- O quê?! Eu não acredito!

Ela me interrompeu.

A água da leiteira já estava fervendo. Então fui adicionando-a ao mesmo tempo em que mexia a mistura com a outra mão.

- Olha, fique tranquila. Eu deixei seu pai em ótimas mãos. Ele está com a sua mãe.

Naquele instante não via mais o que estava fazendo. O ódio tomou conta de mim. Fiquei em transe por alguns minutos. De repente senti minha mão queimar.

- Ai!! – deixei água quente na mão que estava com a espátula.

- Patrícia? Alô?

Derrubei o celular com o susto, imediatamente coloquei minha mão embaixo da água. Assim que aliviou tirei e peguei o celular de novo.

- Pronto! Escuta aqui sua incompetente, volte para lá agora e não importa o que ela vai falar para você. Quero que fique lá e se assegure que ele estará bem. Se algo acontecer com o meu pai, eu mesma terei o prazer de acabar com a sua carreira de enfermeira, pois só irei fazer recomendações negativas ao seu respeito.

- Está bem, desculpe eu não...

Desliguei o celular, estava cansada demais para conversar com aquela idiota. Para finalizar, acrescentei os tomates que havia picado previamente e a salsinha. Desliguei o fogo e joguei queijo ralado por cima. Parecia delicioso.

Após jantar tomei um banho e tomei meus remedinhos que me ajudavam a dormir, sabia que amanhã seria um grande dia.

Entrei na editora e como sempre, na entrada estava a Letícia. Era minha chance de ser mais simpática. Aproximei-me dela.

- Bom dia! – tentei sorrir amigavelmente.

- Bom dia – ela respondeu desconfiada.

Ficamos alguns minutos nos encarando. Quando vi não iria surgir assunto algum ali segui andando. Bom, já era um começo.

Se eu quisesse ser notada teria que ir para a cozinha. É lá que rola altos papos sobre novela, futebol, sexo, notícias e fofocas em geral. Sempre odiei aquele lugar, mas para que as pessoas tivessem outra impressão minha, eu teria que fazer parte daquele universo, então decidi arriscar.

Segui andando até o elevador, estava vazio. Que bom!
Desci no segundo andar e segui para o meu destino. Podia-se ouvir os risos de longe. Coloquei um sorriso no rosto, respirei fundo e entrei.

-  Bom dia gente! – falei bem alto.

Imediatamente pararam de rir e me encaravam. Todos me olhavam espantados.

- Como vocês estão? Como vai a vida?

O silencio tomou conta. Eu não sabia o que dizer.

- Eu estou bem – Adriana respondeu, pegou seu café – até logo pessoal.

Ela saiu da cozinha.

- Nossa, lembrei que eu tenho uma que concluir a minha coluna – Eduardo a seguiu.

E assim o restante foi saindo o Felipe, a Andressa, o Enrique até eu ficar sozinha.

Todos eles fazem parte da minha revista. Adriana, Felipe e Enrique me ajudam a escolher e montar as páginas. Eles se formaram recentemente em editoração gráfica, era seus primeiros empregos na área. Eduardo e Adriana são os colunistas fixos. E temos os colunistas não fixos, os pesquisadores, os fotógrafos e os repórteres, esses vem com menos freqüência aqui.

Decidi ir para minha sala. Minha assistente estava lá.
Aproximei da mesa dela e ela arregalou os olhos.

- Olha acabei de colher o conteúdo que o pessoal da fotografia mandou esta lá...

- Bom dia Ana– interrompi ela.

- O que?

- Estou sendo educada, eu disse bom dia. Quer que eu desenhe?

- Bom... dia – ela respondeu com um olhar desconfiado.

Assim que sentei em minha mesa abri meu site de noticias, não tinha muita coisa para conferir a edição deste mês estava quase completa. Faltava só eu concluir a minha coluna e esperar a do Eduardo.

Então decidi abrir um site de notícias para me atualizar. Uma reportagem me chamou atenção. “Como melhorar o ambiente empresarial”. Cliquei e vi várias idéias de dinâmicas de grupo para manter a equipe unida.

- Bingo! – empolguei

- O quê?  - Ana perguntou sem entender.

- Nada, pensei alto. Já volto.

Fui correndo para a sala de meu supervisor. Eu precisava mostrar que realmente estava disposta a inspirar a minha equipe e melhorar o relacionamento com eles. Bati na porta e entrei.

- Olá

- Oi, tudo bem? – ele falou sem deixar de olhar seus papéis sobre a mesa.

 - Tudo ótimo, você tem minuto?

- Claro, pode falar Patrícia.

- Então Hugo, eu estive pensando... Precisamos melhorar nosso relacionamento com a equipe.

- Precisamos?

- Sim, não apenas eu. Eu sou apenas a chefe de design. Eu, com ajuda da minha equipe e minha adorável assistente – ele conteve o riso quando ela disse “adorável”-  sou responsável por organizar o layout das páginas para trazer um trabalho legal para a minha gerente de criação.

- Ok, seja sucinta por favor.

- Precisamos fazer uma dinâmica em grupo. Eu tenho várias idéias aqui. Podemos bolar uma ...

- Tudo bem Patrícia, é uma ótima ideia. Mas não tenho tempo para montar dinâmica. Você pode fazer isso, sei que da conta. Ah! Aproveita e faz com a revista inteira.

- Mas... eu queria que fosse apenas com o departamento de arte.

- Olhe aquele quadro -  ele parou o que estava fazendo e apontou para o quadro.

- O Organograma?

- É.

- Tudo começa com os colunistas, fotógrafos e repórteres que enviam o conteúdo para a gerente de criação e discutem com ela o que é mais viável. Então os designers trabalham nessas páginas, você e sua assistente finalizam e mandam de novo para ela.

- É. – ela confirma falsamente porque sabe que a sua assistente não auxilia em quase nada, geralmente ela só organiza as papeladas e a sua agenda.

- Por fim é passado para a equipe de correção ortográfica que confere algum erro, depois vai para o departamento web que digitaliza tudo.

- Aí vem tudo pra mim, se eu não gostar volta para criação que faz as devidas  alterações e...

- Aí corrigimos todos os erros e enviamos de volta. Você mostra para o diretor da redação, ele diretor finge olhar e mostra para o conselho, se o conselho aprovar é publicado, eu sei de toda a logística Hugo. – completei.

- Se você sabe, por que acha que só o departamento de design que é importante?

Fiquei em silêncio.

- Ou faça com toda revista ou não faça. A não ser que você não dê conta.

- Claro que eu dou conta! – respondi rapidamente, estava com o emprego por um fio e não poderia fracassar.

- Que bom,  é só isso?

- Sim é.

Sai da sala rapidamente, estava empolgada para começar. Mas também tinha receio. Por que um supervisor colocaria em minhas mãos essa responsabilidade? Minha intenção era que eles fizessem. Eu mal converso com a Ana, a gerente de criação. Apesar de ela ser a minha superiora, prefiro conversar como Hugo que é mais ágil.

Chegando perto de minha sala esbarrei com a Letícia no corredor.

- Desculpe, estava te procurando. Sua assistente disse que você estava na sala do Hugo, então fui te encontrar – ela falou sorrindo como sempre.

- Do que você precisa?

- É que eu soube o que aconteceu com você. É chato né?

- Sobre o que?

- A respeito da sua possível demissão.

- Ah! Já virou notícia é?

- É. Eu gostaria muito de te ajudar. Eu sei que você deve ter algum problema ou trauma, mas eu posso te ajudar a conquistar a todos.

- Eu não tenho nenhum problema e nenhum trauma, está tudo sobre controle. Obrigada! – sai andando e ela me puxou pelo braço.

- Desculpe, não quis dizer isso. É que eu admiro muito o seu trabalho. Eu sou nova e não consigo acompanhar o ritmo daqui. Pensei que se eu te ajudasse a lidar com o seu pessoal, você poderia me dar umas dicas sobre como trabalhar melhor.

- Querida, volta para a faculdade e de preferência pública. 
Ah! Eu tenho terapeuta, ela já faz isso.

- Nossa, todos falam mal de você pela as costas. Eu pensei, quem sabe se eu me aproximar dela ela mostre algo bom. Mas você é ridícula!

- Sou? Então não fique perto senhorita simpatia. De boas intenções o inferno está cheio!

- Você vai perder o seu emprego!

- Não estou nem aí, sou competente. Eu arrumo outro.

- Você pode até arrumar outro, mas ninguém vai te suportar. Você além de mal educada é arrogante e desprezível. Pessoas como você terminam o resto de seus dias SO-ZI-NHAS!

Primeiro Capítulo 
[Continua...]







Comentários

  1. Beto! Que incrível! Você faz a gente acreditar que é uma mulher quem está falando! Isso não é nada fácil: ser homem e conseguir fazer uma "voz de autor" feminina, e vice-versa. Sempre fico preocupada se os meus personagens masculinos passam credibilidade nesse aspecto ou não. Sinceros parabéns! Estou acompanhando com muita curiosidade as peripécias da Patrícia. Já deu pra perceber que ela tem um lado humano. Mas aquele âmago antipático continua lá. Será que ela vai ficar boazinha no final? Por que ela não quer que o seu pai fique a sós com a sua mãe? Que mistério existe por trás dessa preocupação? (Mas precisava ter tratado a enfermeira daquele jeito, coitada?) Enfim, está melhor que muita novela! :D Aguardo ansiosamente o próximo capítulo! ;)

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    1. Desculpe a demora para responder, estava com o computador quebrado. Que bom que estou convencendo com a minha personagem feminina. Confesso que é difícil, tenho que observar o comportamento delas e ler muitas referências também. Patrícia tem muito a que revelar fico muito feliz que você esteja empolgada com a história.

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  2. Que do mal! hahaha. Gostei do cachorros não demitem pessoas. Muitas vezes os animais são melhores do que humanos, mas enfim. Vamos ver até onde a eficiente vai com sua arrogância.

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    1. Ihh vai longe, mas tem motivo pra ela ser sim, pelo menos eu acho kkkk

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  3. ahahahahaha essa história está muuito boa :)
    Como teve inspiração para escrevê-la? :D



    beeijos ^^
    http://carolhermanas.blogspot.com.br/

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    1. Foi do último lugar que trabalhei, tem um cara que é muito semelhante com a Patrícia. Sempre quis construir uma protagonista não tão simpática, mas que demonstrasse um traço de humanidade, mto obrigado e desculpa a demora p/ responder. Pc quebrado :/

      Beijos

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  4. Lendo o conto eu me dei conta que ser legal e sociável dá muito trabalho. kkkkkk
    Adorei o texto!

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    1. Dá trabalho sim e principalmente para quem não muito chegado em pessoas kkkk Obrigado por ler.
      Beijos

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  5. Olá Beto, ótima história. Vou adorar acompanhar! Bjs e obrigada pela visita!

    Território nº 6

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  6. Olá! :) Achei a história bem interessante, só gostaria de ressaltar um ponto: seria bom reler antes de publicar, tem muitos erros bem simples que incomodam durante a leitura.
    Sucesso e até logo :)

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    1. Marina que vacilo meu hein? Olha, muitíssimo obrigado por me apontar esse erro. Vou dedicar um tempo maior a revisão que confesso não ser o meu ponto forte kkk. Fico feliz que tenha gostado e vou fazê-la com mais carinho :D.

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