quarta-feira, 24 de junho de 2015

Agridoce - Capítulo 4





As portas do elevador se abriram. Ela colocou sua mão em minhas costas e foi me guiando até a saída. Passamos pelo o porteiro que estavam com um olhar espantado. Deveria ter visto a confusão pelas as câmeras de segurança.



- Está tudo bem? – ele perguntou sem jeito.


- Claro – ela respondeu sorrindo – elas já se desculparam e eu estou a levando para casa. Você sabe como é né... Duas mulheres de TPM se estranhando.

Ele acionou o botão que destravou a porta da entrada principal.

- Escute aqui. Todos nós passamos por situações difíceis. Eu sei que é difícil para você se abrir agora, mas não ignore suas emoções. É bem melhor você desabafar comigo do que descarregar tudo em uma adolescentezinha mimada.

Não contive o riso. Ela percebeu e esboçou mais alegria ainda.

- Obrigada – foi única palavra que consegui dizer naquele momento.

- Volte quando estiver preparada.

O estacionamento do prédio ficava bem em frente a porta principal. O que eu achava estranho no começo porque estava acostumada a deixar meu carro em lugares onde já tinha um estacionamento subterrâneo.

Entregamos os nossos cartões ao jovem que estava em uma espécie de guarita e fomos até nossos respectivos carros.

Eu precisava relaxar, quer dizer, cozinhar.

Telefonei para a enfermeira e conectei o viva voz no autofalante do meu carro.

- Alô? –ela atendeu no primeiro toque.

-Boa Noite.

- Boa... Noite – porque quando eu falo bom dia ou boa noite as pessoas respondem desconfiadas?

- Como papai está?

- Ele está bem. É um senhor muito adorável. Ele pergunta por uma moça linda que sempre vai visitar ele. Você conhece?

- Conheço. Fala para ele que a moça linda aparecerá no sábado.

- Ok.

- Não esqueça que ele é sensível ao vento, por isso o cubra com o cobertor de lã. Ele detesta edredons. Mantenha sempre as janelas fechadas. Coloque meias nele, porque ele sente muito frio nos pés...

- E não se esquecer do chocolate quente com canela que ele tanto ama tomar antes de dormir. – confie em mim, está tudo tranquilo.

- Obrigada, boa noite.

- Boa... – desliguei o celular

Parei no semáforo, estava vermelho.



Eu estava sentada em meu quarto esperando meu pai vir com uma grande xícara de chocolate quente com canela pronto para me contar uma história. Mas eu ouvia apenas gritos abafados. Decidi levantar e ver de onde eles vinham. Era do quarto de meus pais.

- Quando você pretendia me contar isso?! – minha mãe gritava furiosa.

- Quando eu estivesse preparado! – meu pai respondia no mesmo tom.

- Não sabia que as pessoas se preparavam para o câncer.

- Por que você é sempre ríspida e amarga?

- E porque você é sempre tão condescendente?

- Tá vendo? É por isso que não conto. Sua reação seria essa. – ele colocava a mão cabeça e andava círculos, sempre fazia isso quando estava nervoso.

- E achou que eu não iria descobrir? Acha que nunca iria parar em uma cama de um hospital?

- Pelo menos em uma cama de hospital eu poderia ser sedado e não me importaria com os seus escândalos. Sua louca!

- Como sempre, você só se preocupa com o próprio nariz.

- Eu?! Escuta aqui, eu estava processando toda essa informação porque mal sabia que esse tumor é um defeito genético e é hereditário!

Eu observava tudo pela fresta da porta do quarto deles. Tinha só 10 anos, mal sabia o significado da palavra hereditário.

- Eu levei a Pati ao médico e paguei caro para fazermos o mapeamento genético. Ela tem oitenta por cento de chance de desenvolver. Por favor, me ensine contar isso a uma mulher histérica e a uma criança de dez anos!

Ela se calou. Ficou sem resposta. Minha mãe sempre foi assim exigente e autoritária. O oposto de meu pai: meigo, carinhoso, gentil, paciente... E ele sempre a desarmava com elegância.

- Eu.. eu não sabia...

- Agora sabe. Em momento nenhum você se colocou em meu lugar. Acha que é fácil dar uma notícia dessas a minha família? A notícia de que eu vou morrer?

- Também não é assim. Há centenas de tratamentos alternativos. Isso caso as quimioterapias não funcionem.

- Você não sabe. Você não é médica! E o tumor já está em estágio avançado.

Esbarrei na porta sem querer ela chiou. Eles perceberam que eu ouvia tudo. Corri para o meu quarto chorando. Meu pai veio atrás de mim. Minha mãe apenas me observava pela a porta

- Que foi minha linda? Por que você chora tanto?

- Promete para mim que você nunca vai morrer – afundei meu rosto naquele enorme cobertor de lã.

- Querida...

- Promete pai!

- Eu prometo. Eu prometo que nunca vou te deixar.

Respirei mais aliviada.

- Então, sabe que hora é agora?

- Não. – fingi que não sabia.

- É hora de chocolate.

- Uhul!!!! E história!

Ele olhou para minha mãe. Ela ergueu a sobrancelha.

- Vou buscar para vocês – saiu do quarto.

- Não esqueça a canela! – nós rimos juntos – Ela sempre esquece.

De repente ouvi várias buzinas. Quando percebi, ainda estava parada no trânsito. Aquelas pessoas me xingavam insanamente. Eu sequer tinha energia para responder. Apenas segui rumo ao meu apartamento.

Em fim, cheguei em meu cantinho. Mal sabia o que cozinhar. Já passava das 22 horas.

Abri a geladeira, peguei um tomate, mussarela, presunto e cheiro verde. Piquei tudo bem pequeninho e fui recheando dois pães amanhecidos. Temperei com sal, pimenta e orégano para depois coloca-los no microondas. Pronto estava feito meu lanche. Não tinha forças para cozinhar, o dia tinha sido tenso demais. Fiz um suco artificial, daqueles que você só mistura o pó na água e está tudo certo. Tomei mais remedinhos e desmaiei.

Passaram-se alguns dias. Na medida do possível correu tudo bem. Eu tentando ser simpática e as pessoas me evitando, como sempre. Enfim, chegou o dia da dinâmica. Era a minha chance de provar que eu me tornei social.



Eu fui a primeira a chegar no salão de eventos, no quarto andar. Utilizávamos para grandes reuniões, pequenos eventos, dinâmicas e comunicados. Estava um pouco nervosa.

Não deveria durar muito, como era em horário de expediente não poderia interferir no andamento da revista. Em minutos o salão ficou cheio. Bem, era hora de começar.

- Bom dia.

- Bom dia – eles responderam sem muito ânimo.


Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
Terceiro Capítulo
[Continua...]

domingo, 21 de junho de 2015

Agridoce - Capítulo 3






- Imagina só que cena lastimável. Eu, no corredor discutindo com a Letícia como se fôssemos duas garotas de 15 anos brigando no pátio de um colégio. O pior de tudo era ver a cara de todos, mais uma vez, me chamando mentalmente de bruxa. Hoje, com certeza foi um péssimo dia. – Falei tudo isso deitada em um divã na sala da minha terapeuta. 


A maior parte do tempo eu encarava o teto, o que me irritava as vezes. Sempre preferi conversar olhando nos olhos, mas ela me garantia que era melhor assim.

O consultório era agradável, bem decorado, tinha umas plantas médias que eu não conhecia em vasos lindos. Tudo era impecável: as cortinas, a mesa e a sala era tão iluminadas que eu parecia estar no céu. Um falso céu porque minha vida estava um verdadeiro inferno.

- E então Lúcia? Não vai dizer nada? – ela era baixa, tinha cabelos curtos e usava óculos quadrado enorme para o rosto dela. Sua voz era serena. Até demais. Isso me irritava.

- O que você quer que eu diga?

- Alguma coisa – sentei-me no móvel e a encarei – Você tem que me falar o que eu faço para não perder o meu emprego. Eu te pago pra isso! E pago caro!

- Veja bem Patrícia – ela respondeu calmamente - Tem coisas em sua mente que precisam ser esclarecidas.

- Que coisas? – interrompi já sem paciência – A única coisa que eu quero é trabalhar em paz.

- Patrícia, tem certeza que é isso o que você realmente quer? Você precisa ser sincera comigo e principalmente consigo mesma.

Levantei com raiva. Depois de ter brigado com a Letícia estava eu brigando com a minha terapeuta.

- Escuta aqui. Eu pago para você para melhorar a minha vida e você me chama de mentirosa?! Eu estou cercada de pessoas incompetentes.

- Patricia... – ela tenta tocar o meu ombro, mas não ela não deixa.

-Olha sua terapeutazinha de quinta. Já superei muita coisa em minha vida. Já superei traição de um cafajeste, já aceitei que o meu pai vai morrer e se perder esse emprego arrumarei outro melhor. Eu posso superar tudo!

- Superar ou ignorar?

-SU-PE-RAR e muito bem superado. Prova é que estou com uma vida totalmente renovada, o único problema é essa droga de emprego.

- Se é uma droga, por que você quer tanto ser aceita?

- Porque eu não quero acabar com a minha carreira de designer logo no início.

- Eu acho que você não quer é acabar com a sua vida.

- Minha vida é perfeita, tudo sob controle. Eu nem sei porque eu estou aqui te dando ouvidos. Vou procurar uma profissional melhor que você.

Peguei minha bolsa e fui em direção a porta.

- Procure outra terapeuta, ou um psicólogo e eles vão lhe dizer a mesma coisa. Você não vai conseguir fugir disso para sempre Patrícia.

Sai da sala e bati a porta. Chega de lorotas. Chega de rodeios. Eu só queria uma solução prática mas só estou afundando. E quem ela pensa que é para me dizer que isso vai me perseguir para sempre? Tudo agora é passado. Já aprendi que não posso confiar em ninguém. Ninguém mesmo. Nem em terapeutas. Ah! Como eu odeio pessoas.

Peguei o elevador, tinha uma senhora e uma jovem já lá dentro. Elas deveriam ir parar no térreo também, afinal não tinha nenhum botão acionado. A adolescente aparentava ter uns 15 anos. Parecia estar enfeitiçada pelo o seu smartphone. Ah! Como eu detesto arborrescentes! A senhora sorriu para mim, não consegui sorrir de volta. Estava estressada de mais pra isso, apenas acenei com a cabeça.

- Como esse prédio é grande né moça?

- Sim, deve ter uns 20 andares.

- Não incomode a moça vovó.

- A única coisa que me incomoda é ouvir o som do teclado do seu smartphone. Querida, você conhece o modo silencioso?

- Ela me olhou espantada e em seguida olhou para o led que marca o andares.

- Droga estamos descendo!

O elevador parou no térreo. A senhora se despediu de mim e assim que sai do elevador ouvi uns gritos.

- Sua débil mental! Não sabe nem apertar o botão de um elevador. Eu mandei você apertar o 16.

- Eu esqueci...

- Nossa mas até disso você esquece.

Aquilo me deixou furiosa. Quem aquela pirralha pensa que é para falar assim com a própria avó. Voltei correndo para o elevador e segurei a porta antes que ela fechasse.

- Querida você tem dicionário em casa? Por que eu acho que você não sabe o significado da palavra demência.

Ela permaneceu calada.

- Demência quer dizer perda da capacidade cerebral de uma pessoa que ama, ou deveria amar. Não acredito que seja o seu caso. Mas para a sua informação, eu garanto que essa “débil mental” ajudou muito na sua criação e te paparicou bastante para você se tornar mimada e mal criada.

O elevador já estava subindo

- Hei! Não se meta! Você não tem nada com isso!

- Por favor, parem de brigar – a senhora implorava sem graça.

- Pede desculpas a ela! –puxei-a pelo o braço.

- Para! Você está me machucando!

- Não se incomode com isso minha filha, ela não falou por mal...

- Me solta! – apertava o braço dela mais forte ainda.

De repente a porta do elevador abriu. Era a terapeuta.

- O que está acontecendo aqui?! – ela chegou já me separando Patrícia da garota.

- Estava ensinando bons modos a essa ingrata – falei zangada.

- Essa mulher é louca! Temos que chamar a polícia para ela.

- Calma, não é necessário. Tenho certeza que todas estavam com os nervos a flor da pele e vão se desculpar civilizadamente. Não é mesmo Patrícia?

- Pede desculpas a sua avó.

- Desculpa vó. – ela respondeu descontente.

O elevador chegou no décimo sexto andar.

- Agora peça desculpas as duas Patrícia.


- Não precisa - a senhora sorriu amarelo.

- Mas eu não fiz nada. Apenas defendi esta senhora.

- Por favor.

-Desculpe - eu precisava parecer normal, afinal só iria comprovar a tese da terapeuta.

- Até mais moça, acalme-se que tudo dará certo. Fiquem com Deus. – ela falou já de fora do elevador.

As portas se fecharam se quem que eu pudesse pensar em uma resposta. Apertei novamente o botão do térreo.

- Seu pai tem ou tinha algum tipo de doença degenerativa? – a terapeuta me perguntou.

- Câncer.


Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
[Continua...]