sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Agridoce - Capítulo 10




- Então Patrícia, como foi com o Hugo? - Adriana perguntou e deu sua primeira garfada. Eu nunca tinha ido naquele self-service. Gostava de almoçar em lugares não tão próximos do meu trabalho, porque pelo menos não corria o risco de encontrar com pessoas daquele ambiente.

- Como assim? - perguntei já imaginando o que ela me responderia.

- Você sabe né? Todo mundo comentou. Vocês se afastaram da gente ontem. Rolou algo?

- Claro que não! - Naldo interveio.

- Deixa ela responder - Adriana advertiu. Percebi que ela tinha perdido o interesse em seu prato.

- Não rolou nada e nunca vai rolar. Hugo é um estúpido e... - só não completei a frase porque Naldo pigarreou escandalosamente.

- E lindo - Larissa acrescentou - Ainda bem que eu não fico perto dele, porque se eu ficasse só conseguiria fotografar aquele rosto de galã de novela mexicana.


- Detesto novelas, ainda mais mexicanas - revirei os olhos.

- Você é uma mulher de sorte, Patrícia. Não tem noção do quanto o Hugo é cobiçado - Adriana insistiu.


- Sério? - falei com desdém.

- Adriana, o Hugo pode até ser um gato, mas pega todas que estão em seu caminho - Larissa advertiu.

- Pega é de tudo! - Naldo disse num tom de voz mais baixo. Percebi que tinha fechado a cara e abaixado a cabeça.

- O que você disse? - Adriana questionou.

- Nada. Só pensei alto

Ela retomou.

- De qualquer forma, ele é supervisor e sei que tem influências com os editores chefes. Vocês sabem que muitas revistas estão fazendo corte de pessoal, né.



********



- Entendeu as minhas dúvidas? - passei a encará-la.

- Patrícia, primeiramente você não precisa se martirizar com suposições. Antes de mais nada é importante saber o que você quer para si mesma.

- Eu quero melhorar a minha imagem profissional.

- Tem certeza?

- Claro que eu tenho. Esse é o meu maior objetivo.

- Ok. Encerramos por hoje - ela sorriu e se levantou - não deixe de refletir se é isso mesmo que você deseja.

- Já refleti o suficiente, só preciso agir.

- Tenha uma ótima noite - ela me conduziu até a saída.

- Igualmente.

Minha semana finalizou-se basicamente assim: com bastante trabalho e eu indo almoçar com os meus novos "amigos". Estávamos nos preparando para mais uma reunião de pauta, que aconteceria na segunda-feira.

Enfim, sábado.

Fiz o máximo possível para não pensar naquele dia. Teria que mais uma vez enfrentar essa situação. Coloquei uma calça jeans, camisa regata e óculos de sol para cobrir minha angústia. Eram aproximadamente nove da manhã e eu não levaria mais de quarenta minutos para chegar até o meu destino. Até à casa na qual morei com os meus pais.


Foi assim que eu passei a chamá-la: " A casa na qual morei que morei com os meus pais". Não a considerava mais como meu lar. E esse conceito foi desfeito aos poucos. Primeiro, com a morte dos meus avós. Depois, com o abandono de minha mãe. E, por último, com o câncer do meu pai evoluindo. As únicas coisas boas daquele lugar permaneciam apenas em minha memória.

Já no carro, minhas mãos tremiam. Mal conseguia fixar no trânsito. Eu encararia qualquer pessoa friamente, exceto meu pai. Meu herói. Com ele, me esforçava ao máximo para não desabar. Justo com ele.
Justo com o homem que durante muitos anos me deu todo o seu amor e todo o seu carinho.

Não me sentia capaz de conviver com ele assim, de ver diariamente o meu ídolo que tanto venerei, destruído em pedaços. Não entendia o porquê dessa minha impotência. Só estava certa de que a única maneira de ajudá-lo a enfrentar essa situação era mantendo essa distância de quarenta minutos.

Não sei como dirigi. Quando me dei conta já estava diante daquele lindo muro coberto por trepadeiras. Acionei o controle remoto para abrir o portão. Guardei meu veículo na garagem e entrei pelos os fundos até chegar à cozinha.

- Ai! – Pâmela estremeceu assim que me viu.

Ela ofegava tanto que eu me sentia uma assombração ou algo do tipo.

- Desculpe... eu... não... vi... você... chegar – ela falou num tom alto, percebi que era por conta dos fones de ouvido que usava. Assim que fiz sinal ela os tirou rapidamente.

- Com essa música nessa altura você não vai perceber ninguém chegar mesmo.

Ela deu um sorriso vergonhoso.

- Que bom que você chegou, ele estava ansioso para vê-la.

- Onde ele está?

- No quarto dele.

- Pode me acompanhar até lá? – ela não conseguiu esconder o seu olhar de espanto. Afinal, não era comum eu pedir para ser conduzida.

Pâmela foi na frente. Entramos no corredor à esquerda da cozinha, passamos em frente ao meu antigo quarto e depois viramos à direta desse. Pronto. Estávamos diante da porta do dele.

Ela parou, me fitou por alguns segundos e desviou o olhar para o chão. Parecia saber que eu precisava reunir forças mais uma vez. Respirei fundo e quando voltou a me encarar fiz que sim com a cabeça. Por fim, abriu a porta.



12 comentários:

  1. Estou adorando ver o lado sentimental da Patrícia. Por trás da mulher durona está alguém sensível, que ama muito o pai, e que guarda grande mágoa da mãe... como será que o pai dela está para que ela esteja com tanto medo assim de visitá-lo? Bye!

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    1. Hi dear friend, desculpe a demora para responder. O lado sentimental dela começa a se manifestar haha Bom, será que não é algo da cabeça dela?

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  2. Olá, Beto.
    Tudo bem, estou adorando ver as mudanças presentes nas ações dos personagens. É bonito de ser visto, o quanto podemos ser mudáveis.
    Até mais http://realidadecaotica.blogspot.com.br

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    1. Fico feliz que esteja gostando, espero manter assim.

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  3. De novo só li por alto porque quero salvar todos os capítulos depois e ler com mais calma rsrs. Ainda continuo sem tempo, acredita? Até no blog eu não apareci essa semana. Ah, mais tem post novo rs.
    Abraços.

    http://rafaeljviana.blogspot.com.br/

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    1. Obrigado por ver e comentar, pode deixar que vou conferir as novidades do seu blog.

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  4. Agora começamos a entender a atitude de Patrícia em relação à sua mãe. E como ela deve sofrer diante do estado do seu pai. No meio de tudo isso, a luta para se manter no emprego. É muito peso para uma pessoa só. Ela é frágil e forte ao mesmo tempo. Merece ser feliz.

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    1. Sim, essa é a verdadeira essencia de Patrícia: Agridoce.

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  5. Tenho de começar a ler essa história, tipo AGORA
    Você viu Backstreet Boys na MTV???? Nossa! Quantos anos você tem? hahahahaha
    Beijos
    Balaio de Babados

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    1. Backstreet boys só fui ouvir depois que virou febre. Na verdade eu disse que vi a banda Yeah Yeah Yeah na MTV

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  6. Nossa, estou curtindo muito o seu conto, ansiosa pelos próximos capitulos.

    Beijo
    http://www.portiprati.com/

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