Nós precisamos cultivar mais feijões: A Luta Contra a Violência Juvenil Contemporânea - Parte 1




Muitas professoras da fase introdutória de ensino pedem para seus alunos cuidarem de grãos de feijão em copos descartáveis. Este ato parece ser uma prática de estímulo para a preservação do meio ambiente – que é importante e necessário – mas ele treina as crianças e jovens a zelar por algo. Esta prática que, muitas vezes, deixada de lado ajuda a desenvolver o senso de cuidado e empatia.



O caso de violência coletiva o cãozinho comunitário Orelha e a morte do jovem Rodrigo Castanheira após uma briga banal mostra como a violência tende a voltar ser banal se esses valores não são bem trabalhados na infância.





Ao longo das décadas de 80 e 90 a violência da era motivada pela escassez e domínio de território. Nesse período, a violência era mais brutal, mas geralmente possuía uma “lógica de causa e efeito" dentro do contexto social. Grandes conflitos agrários, o nascimento das facções criminosas nas periferias e o crime patrimonial (roubo para ganho financeiro). Era uma violência por sobrevivência ou por poder político/econômico. O "outro" era um adversário ou um meio para um fim material. 



Como bem retratado no realismo visceral de filmes como "Pixote" e "Cidade de Deus".







Com a estabilização econômica, entre os anos de 2000 a 2010, a violência ganhou pautas voltadas para discutir exclusão e consumo. O foco mudou para a inclusão. A violência passou a ser um grito de revolta contra a desigualdade social. Briga de gangues de bairros, conflitos em eventos esportivos (torcidas organizadas) e a origem do termo bullying nas escolas. A violência servia como construção de identidade e status. Agredir era uma forma de dizer "eu existo" ou "eu pertenço a este grupo".


É o cenário que vemos em obras como "Precisamos Falar sobre o Kevin", onde a violência é um grito distorcido por atenção e pertencimento.





A violência da indiferença e do tédio chegou aos casos críticos a partir dos anos 2020, considerando o período pandêmico e o pós-pandêmico. É aqui que os casos de Pedro Turra e do Cão Orelha se encaixam. Não há mais um "motivo" que justifique a agressão, nem mesmo o dinheiro ou o status de grupo. O simples fato desses jovens provavelmente viver algum sofrimento ou distúrbio mental/social os impedem de entender o limite do respeito, sofrimento e dor alheia.



O simples fato de agredir para descarregar raiva ou pelo tédio, com ausência de humanidade e alta demonstração de apatia. O ambiente digital (Discord, fóruns anônimos) e a desconexão com a realidade física. O jovem consome violência em "loop" nas redes sociais até que o sofrimento alheio vira um conteúdo sem peso. Voltamos a um estado primitivo de impulsividade. Um chiclete no chão ou um animal latindo são vistos como ofensas insuportáveis porque o indivíduo perdeu a capacidade de processar o incômodo. Se algo me incomoda, eu destruo.



Dados Recentes






Em 2025, o Brasil registrou um aumento de 21% nos processos por maus-tratos a animais em relação a 2024. O crescimento em comparação a 2020 é de assustadores 1.900%, revelando que a crueldade contra seres vulneráveis se tornou um fenômeno epidêmico.

Casos de violência interpessoal (brigas e hostilidades) nas escolas aumentaram 250% na última década. Em 2026, o debate sobre a redução da maioridade penal para crimes de crueldade contra animais e homicídios fúteis ganhou força após os casos de Orelha e Pedro Turra.


As denúncias de conteúdo criminoso na plataforma Discord cresceram 272% no início de 2025. Investigações de 2026 mostram que grupos organizados promovem "eventos pagos" para assistir transmissões ao vivo de automutilação, tortura de animais e humilhação. Meninas de 13 e 14 anos sendo cooptadas para atuar como "gerentes de dados" de grupos violentos, onde a tortura de pequenos animais e a automutilação são exibidas como se fossem um videogame. Em um caso recente, uma jovem ateou fogo em um gato e postou: "Botei fogo na casa, daora", demonstrando o ápice da desensibilização.


Regredimos porque a violência perdeu o seu 'porquê'. Se nas décadas de 80 e 90 a agressão era uma ferramenta brutal de poder ou sobrevivência, em 2026 ela se tornou um estímulo sensorial de baixo custo. Agredir não é mais sobre conquistar algo, mas sobre preencher o vazio de uma juventude que desaprendeu o custo da vida. Passamos da violência por necessidade para a violência por entretenimento, onde um chiclete ou o latido de um cão são faíscas suficientes para incendiar o pouco que resta de humanidade. Hoje, os jovens veem o "morrer" no Discord com a frieza de quem fecha uma aba de navegador.

Por fim, e o que o feijãozinho tem a ver com isso? Práticas como desenvolver atos de serviço desinteressados, levar crianças para ajudar em trabalhos voluntários, cuidar de animais de rua ou, até mesmo adotar um pet (se for possível) exercitam o valor de respeito e cuidado. Nos próximos artigos, iremos explorar como podemos plantar essas sementes e proteger os jovens dessas influências tão sedutoras. Assim, como citado no começo do ano no crossover entre Stranger Things e Everybody Hates Chris. Em um mundo tão digital, precisamos resgatar muitos valores analógicos, como o cultivar. 



E você? 

O que vem cultivado nos últimos tempos?


 









Fontes:

Imagens

Pinterest (Precisamos Falar Sobre Kevin)

 https://br.pinterest.com/pin/826832812821025918/

Querido Jeito (Cidade de Deus) 

https://queridojeito.com/frases-do-filme-cidade-de-deus

Folha Uol (Justiça por Orelha) 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/djamila-ribeiro/2026/02/o-cao-orelha-e-a-maioridade-penal.shtml

BBC Brasil (Violência no Futebol)

https://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/02/150211_futebol_briga_torcidas_rm

Le Monde Diplmatique Brasil (Violência na década de 80)

https://diplomatique.org.br/a-decada-de-1980-a-torturante-funcao-da-educacao-ii/







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