Nós precisamos cultivar mais feijões: alternativas para reverter a dessensibilização
“Que mundo estranho que avança na tecnologia e retrocede no pensamento e violência, quanto mais sábia se torna a humanidade,mais cruel ela fica...
Nos resta, refletir!”
Si Coutinho
Abri o artigo final com a reflexão de Si Coutinho e confesso que esta passagem me chamou a atenção: “quanto mais sábia se torna a humanidade, mais cruel ela fica...”
Nos artigos anteriores falei sobre o ato de cultivar feijões, disse que ele vai além de um recurso pedagógico. Muitas correntes teóricas defendem que, na maioria das vezes, nossa personalidade é moldada por estímulos exteriores. Ao cuidar de feijões, lá na infância nós exercitamos o zelo, a paciência de acompanhar processos e a responsabilidade. Ali é plantada uma ideia. Certa vez minha vó me disse: “Quer saber se alguém está pronto para casar? Dê uma roseira para a pessoa cuidar” Eu associei a essa frase da minha avó porque a roseira exige mais cuidados. Não daria certo deixá-la com crianças por conta de seus espinhos e exigências. Ela quis dizer que um casamento é como a beleza de uma roseira. Para mantê-la bonita, é preciso zelar por ela. E mesmo bela, apresenta espinhos. Ou seja, no casamento tem momentos bons e ruins, cabe ao casal cuidar da relação. Voltando para as crianças, o estímulo de cuidar dos feijões aconteceu. Cabe aos pais, ao ambiente social reforçá-lo. Aos poucos a criança vai transferindo este cuidado para seus familiares e colegas. Assim exercita-se a sensibilidade.
Existem vários motivos que podem atrapalhar este processo, um deles é a ausência de estímulo. Quando uma criança não teve contato sensível com a natureza, foi criada de forma que suas necessidades sejam prioritárias e outras formas de vida não importam, isso pode afetar o seu comportamento. Não é regra: algumas pessoas que não foram estimuladas a zelar por algo podem buscar cuidar dos outros por conta própria, por observação. Por exemplo: alguém que não foi ensinado a cuidar, mas viu algum gesto de apoio mútuo e se inspirou nele.
A grande questão é ao invés de sementes, comumente vemos crianças e jovens conectados ao smartphone. Muitos deles não acostumados a lidar com as responsabilidades de forma assertiva e acabam viciando no prazer que jogos e redes sociais oferecem.
Existem pesquisas há décadas dizendo sobre o risco do uso excessivo de telas. No entanto, este problema evoluiu muito. Já era importante observar o risco da ansiedade, depressão e distúrbios anti-sociais. O que está sendo falado agora no mundo todo é a intolerância ao tédio.
Além de lidar com comportamentos auto-destrutivos, lidar com a descarga de frustações no próximo. Citamos aqui no começo do ano a violência recreativa realizada no cãozinho “Orelha”, a briga por um motivo banal que resultou na morte de um adolescente.
São frutos da dessensibilização. Ela ocorre quando as pessoas se acostumam tanto a ver violência que acaba banalizando-a. Muitas vezes, por traz de um ato violento está uma pessoa com raiva acumulada, estresse e exaustão mental. Acontece também por pessoas de má índole e doentes mentalmente mas ainda não é a maioria.
Dá a impressão que a sociedade está ficando louca, mas não está. No geral, as pessoas estão mais intolerantes mesmo. Décadas atrás tínhamos paciência para esperar resultados, entregas de produtos, cartas e essa espera resultava em um estado genuíno de felicidade com a chegada de algo desejado. Hoje, como temos muitas opções, informações e recursos para atender as nossas necessidades, muitas vezes falhamos em esperar e, quando chega não conseguimos aproveitar pois já estamos esperando o próximo.
Assim, o "scroll" que antes você só via no celular passa a operar a vida. Este relacionamento não deu certo? Próximo! Este emprego não me agrada? Próximo!
Eu citei relacionamento e emprego porque é um fenômeno que afeta a nós adultos também. Não podemos deixar de mencionar que os jovens aprenderam a ser dependentes do celular conosco. Grande parte da geração Millenium conheceu o mundo sem smartphones. A geração atual não. Portanto, os primeiros a não só ensinar as crianças a usar corretamente somos nós, sobretudo, somos também os primeiros a dar exemplos.
O tédio é necessário, esperar é necessário e fazer tarefas não prazerosas também é necessário.
O fato de ser alheio as tarefas diárias, monótonas e querer apenas lidar com coisas que geram estímulo também contribui para a dessensibilização. A vida não é somente prazer, ela depende de rotina, de hábitos e responsabilidades. Ela trás frustações, coisas que desmoronam e dão errado.
E pode acontecer do nosso feijão morrer. Aí você faz o quê? Culpa o mundo?
Vai bater si mesmo? Vai bater em alguém?
O sistema penitenciário brasileiro oferece alternativas para reinserir pessoas na sociedade, dependendo do caso. Muitas conseguiram recomeçar suas vidas devido à oportunidades que estiveram dispostas a abraçar. Sendo assim, acredito que mesmo após ter feito algo terrível e pagado por isso, as pessoas que estão dispostas a mudar merecem uma segunda chance.
Podem ser reeducadas e ressensibilizadas. É mais difícil depois de adultas porque foram hábitos que o cérebro assimilou a adotou como normal. No entanto, muitas entidades religiosas e filantrópicas conseguiram fazer o resgate de muitos cidadãos. A grande questão é pararmos para fazer uma auto analise.
Todo mundo pode fazer e oriento que deva fazer para saber como está o seu nível de sensibilidade.
Responda:
Ultimamente, tenho me preocupado somente com as minhas necessidades?
Recentemente, alguém desabafou comigo e eu sinto que poderia ter me expressado de forma mais empática?
Quando eu recusei ajuda a um estranho, será que eu realmente poderia ter feito algo?
Não iremos acertar sempre, tampouco salvar o mundo. Nossos erros irão nos guiar para lapidar o nosso ser. Acredito que vivendo em uma sociedade mais conectada, podemos usar essas ferramentas a favor do bem comum. Pode ser que no seu ambiente de convivência você aja pela contra-mão. Não tenha medo. Enquanto uns compartilham violência, compartilhe boas notícias. Enquanto uns ridicularizam a dor alheia, ofereça mensagens de apoio. Enquanto uns se divertem com jogos de extermínio, busque jogar os que impulsionam a salvar o mundo. Enquanto muitos estão viciados em tela, atreva-se a brincar de algo analógico ou até mesmo ir cuidar de sua plantinha.
Quanto mais cedo esses hábitos são plantados, menor a chance de gerar crianças insensíveis. Isso não quer dizer que seja garantia pois envolve outros fatores dos quais os pais não têm controle. Mas vale a pena o esforço e a vigília. Além disso, ao mesmo tempo que houve um aumento no número de jovens apáticos, também existe uma galera mais sensível que nós, adultos e, que se preocupa com coisas que décadas atrás passariam despercebidas.
Talvez, sair um pouco do estoicismo(foco no eu) e ir para o confuncismo(foco no coletivo). Pois nem sempre dá para esperar atitudes do governo. Em muitos momentos, o cuidado coletivo pode resolver grandes problemas.
E aí? Prontos para melhorar o seu cultivo?



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