Muito Além da Sorte para Lidar com o Estresse Financeiro
No nosso primeiro artigo, vamos falar sobre um assunto que ainda persiste nas pautas deste ano: o estresse financeiro. Como pano de fundo, pegaremos alguns filmes que retratam bem a realidade de uma crise e como podemos nos reinventar a partir dela.
Faz parte da realidade de muitos brasileiros (inclusive da minha) fazer sacrifícios para conquistar objetivos. Muitas vezes, uma forma de negar a própria realidade é rindo da pobreza do outro. E, quando se conquista uma grande quantia, corre-se o risco de definir a própria segurança e equilíbrio apenas pelo valor na conta bancária.
No filme de humor "Até que a sorte nos separe", essa realidade é muito bem retratada. Após ganhar na Mega-Sena, Tino gasta dinheiro como se fosse infinito. Além disso, quando questionado pelos sócios sobre sua ausência na administração da academia, ele justifica que, por ter entrado com o capital, não tem a obrigação de contribui com nada mais. Com isso, ele entrega sua parte como se não precisasse mais dela.
De forma hilária, ele percebe que todas as suas reservas se esgotaram e faz de tudo para esconder a falência de sua mulher, Jane. Ao longo da trama, o consultor financeiro Amauri tenta impedir sua falência total, gerando momentos hilários por conta de ter uma personalidade exageradamente controlada.
Para começo de conversa, nossa cultura ainda é movida por crenças populares como sorte, providência divina, destino e lei do retorno. A intenção deste artigo não é questionar nossos sistemas de crenças e sim entender o que é palpável e o que está ao nosso alcance resolver.
A pobreza gera dores. A dor de desejar e não poder comprar, a dor das renúncias diárias, a dor de ser humilhado e desumanizado. O protagonista, ao lidar com uma alta quantia de dinheiro, perdeu-se totalmente da realidade. Ele projetou seus traumas na convicção de que o recurso nunca acabaria.
Quando analisamos a realidade de forma racional, percebemos que é perfeitamente possível esgotar grandes fortunas. Quando gastamos mais do que ganhamos, a crise é certa. A falta de conhecimento para lidar e entender o que pode ser feito com determinada quantia gera prejuízos profundos.
Passamos pela pandemia da COVID-19, período em que os preços subiram drasticamente e a incerteza financeira global esteve presente. As dinâmicas de comportamento mudaram: o consumo em casa tornou-se uma rotina consolidada e o setor de serviços adaptou-se ao seu redor. Novas formas de ganhar dinheiro surgiram, bem como contratos de trabalho cada vez mais diversificados. Se por um lado sobram vagas em alguns serviços, por outro, vemos cada vez mais pessoas decidindo trabalhar por conta própria.
O filme não é recente, foi lançado em 2012, muito tempo antes da pandemia. Contudo, o personagem do consultor ganha destaque por tentar manter o controle absoluto de tudo. No desenrolar da trama, percebe-se que sua esposa estava cansada do seu posicionamento excessivamente rígido. Já no caso de Tino, quando a esposa descobre que o marido escondeu a perda de todo o patrimônio, ela fica chateada não apenas pelo valor, mas pelo fato de ele não ter compartilhado essa dor com ela.
Aí reside outro ponto crítico que o estresse financeiro ataca: a perda da autoconfiança e da capacidade de resolver problemas. Isso frequentemente leva a pessoa ao isolamento e ao risco de tomar decisões prejudiciais. O homem carrega o peso social de ser o provedor e, muitas vezes, é rotulado como um fracassado ao falhar.
Cito a pandemia várias vezes porque grande parte de nós, brasileiros, ainda está tentando se adaptar à nova dinâmica econômica mundial. O número de endividados aumentou consideravelmente, como foi amplamente noticiado ao longo do ano. Por isso, a qualidade das relações interpessoais é de suma importância para se recuperar de uma crise financeira. No final do filme, fica claro que a lealdade e a confiança são os pilares que sustentam os laços perante as adversidades.
A partir dessa narrativa, separei as três principais lições que os pais de família da história nos deixam:
O excesso de emoção: O protagonista falha ao querer compensar seus traumas gastando sem limites. Continua falhando ao esconder sua crise dos amigos e da família. Tenta a todo custo se autoafirmar fingindo estar bem, criando situações de confusão que poderiam ser evitadas se tivesse buscado orientação correta e agido com transparência.
A importância da rede de apoio: Fique atento a quem realmente acolhe você e a quem zomba da sua situação. Tino perde muitos "amigos" assim que deixa de ser milionário. Para aqueles que não têm a quem recorrer, o caminho é buscar orientação com assistentes sociais e até mesmo líderes religiosos confiáveis. Basear-se na fé é saudável e ajuda a atravessar fases difíceis, mas é fundamental realizar movimentos práticos para sair dessa situação: fazer um trabalho temporário, mudar de área, vender produtos ou prestar serviços por aplicativos. São atitudes que vemos pessoas comuns tomarem diariamente, além de reconhecer a atual situação e cortar gastos.
O excesso de controle: O coadjuvante sofre pelo oposto. Ele tem tanto medo de gastar dinheiro que simplesmente não vive; sua rotina torna-se excessivamente mecânica. Enquanto no protagonista o dinheiro causou o efeito de agir sem pensar, no consultor causou o congelamento. As necessidades afetivas da esposa foram ignoradas no decorrer da história até ela protestar. Economizar é preciso, no entanto, precisamos avaliar até que ponto isso nos torna apáticos. O quanto sofremos para manter um padrão de vida, o quanto lutamos para não abrir mão de um carro do ano e o próprio medo da escassez geram essa paralisia.
De qualquer forma, o dinheiro é necessário para construir a dignidade e manter uma vida saudável. Quando não conseguimos fechar o mês, realizar sonhos ou quando precisamos abrir mão de atividades que amávamos, é hora de parar, repensar e recalcular a rota. Escrever este texto não foi fácil porque toca em lugares sensíveis de muitas pessoas, assim como tocou nos meus.
A questão é que a vida ainda vale a pena ser vivida: ela pode ser prazerosa e é perfeitamente possível construir novos propósitos quando os antigos tornam-se caros e desgastantes demais.
Desejo muito que as fases ruins não desconstruam o seu melhor e que você possa extrair as melhores lições de cada adversidade.
No próximo artigo, falaremos sobre sacrifícios financeiros e quando vale a pena acreditar em um sonho. O filme escolhido será À Procura da Felicidade.




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