Reflexões sobre EQUILIBRIVM de Anitta
Em um dos momentos mais polarizados do Brasil, é arriscado apresentar um projeto musical que foge dos padrões mais comerciais e consagrados. Em tempos de intolerância e apatia diante do que é diferente, Anitta apresenta uma mensagem necessária no momento certo com o álbum EQUILIBRIVM.
Começando no Funk Melody, popularizando-se no Pop e se consolidando na música latina, Anitta construiu uma carreira de visibilidade internacional indiscutível. Entre erros, acertos e polêmicas, a artista chega a este projeto de maneira sólida, madura e bem pensada.
A Premissa e a Estética
EQUILIBRIVM traz conceitos de espiritualidade, amores leves, senso de identidade, pluralidade e ancestralidade. A narrativa musical convida a olhar para dentro de si, reconhecendo a própria humanidade e permitindo-se desacelerar.
Toda a base visual, artística e sonora do projeto remete às religiões de matriz africana. Vale enfatizar o termo: remete. Talvez este seja o ponto mais delicado e passível de crítica no álbum. Se por um lado é extremamente positivo oferecer visibilidade a manifestações religiosas historicamente marginalizadas pela sociedade, por outro, a representatividade em alguns momentos soa teatral e caricata. A questão ganha contornos mais problemáticos nas apresentações ao vivo, onde a fronteira entre a homenagem sincera às figuras cultuadas e o uso estilizado para gerar impacto mercadológico fica tênue.
Existem obras dedicadas à Umbanda e ao Candomblé que entregam uma devoção muito mais profunda. O objetivo de Anitta aqui não parece ser o aprofundamento doutrinário. O projeto reflete uma busca de autoencontro espiritual e a afirmação de uma postura universalista. Contudo, o álbum não funciona bem como porta de entrada para essas práticas.
A estrutura do disco oscila: inicia abordando a fé de forma fluida e com referências pontuais, mas logo retorna ao pop dançante e às faixas voltadas para boates. Seria mais preciso defini-lo como um pop afroespiritualizado. Essa abordagem híbrida acabou gerando ruídos com líderes religiosos que há décadas lutam pelo respeito e pela desmistificação de seus símbolos.
A Sonoridade: Entre o Funk, o Samba e o Terreiro
Se a música gospel se modernizou para dialogar com as massas, outras correntes espirituais seguem tendência semelhante no mercado fonográfico. Sendo uma artista de massa, Anitta não ignora a dimensão comercial. Contudo, o grande triunfo do álbum reside na inovação de suas produções.
A fusão de sintetizadores modernos com a percussão orgânica dos atabaques e batuques cria uma atmosfera rica. Várias faixas flertam com o experimentalismo e encontram um ponto de equilíbrio marcante. É a tradução exata da ponte entre a periferia urbana e os ritmos tradicionais: a batida da rua encontra o som da raiz.
A composição sonora esbanja brasilidade e versatilidade. Em vez de se apoiar exclusivamente no funk que a consagrou, Anitta abraça o samba com autoridade e talento.
Essa transição ritmada amarra a proposta do álbum em nuances claras:
Da aceleração à cadência: A transição do batidão frenético para a cadência do pandeiro e do cavaquinho traduz a busca por desaceleração. O tambor que marcava a urgência dos bailes ganha novo fôlego, guiando a escuta para um ritmo mais contemplativo.
A busca pelo autoconhecimento: Em faixas mais intimistas, as letras refletem a libertação da busca por validação externa. Evidencia-se um momento de carreira em que a aprovação do mercado cede espaço à maturidade e à busca por paz interior.
Celebração e Leveza: A transição sonora traz também letras mais inteligentes, com arranjos bem elaborados e uma abordagem que privilegia afetos leves e a reconexão com a própria essência, abandonando as ilusões da fama e da hiperexposição.
Concluindo
Como citado anteriormente, apesar da intenção nobre do projeto, há tropeços no tom da representação visual, principalmente em algumas performances ao vivo que soam caricatas e teatrais demais — um estigma que a representação da cultura afro-brasileira tem lutado historicamente para desfazer. Muitas vezes, próximo ao mês de novembro, a representação da negritude no pop tende a ser mais artística do que reflexiva. Assim, a mensagem da cantora não se aprofunda: ela não aponta nem questiona criticamente as estruturas sociais.
Isso não torna o projeto ruim, mas serve de aviso para que o ouvinte não o acesse com expectativas desmedidas. Existem outros álbuns que abordam essas religiões com muito mais profundidade e entrega devocional.
Sem falar de ser complexo, rico e multiplataforma. Ela lançou em duas partes, sendo a segunda acompanhada por um belo curta metragem musical com uma fotografia deslumbrante. Daí se ela vai seguir essa linha musical, ou se é uma fase para expor sua espiritualidade ela mesmo não sabe. De qualquer forma, a mensagem foi passada de forma verdadeira, clara e eficiente.
Ainda assim, EQUILIBRIVM cumpre um papel válido ao convidar o ouvinte a desacelerar, aproveitar a vida e olhar para a própria ancestralidade. Com letras mais maduras, arranjos complexos e uma direção artística bem construída, Anitta entrega um trabalho desafiador que provoca debates necessários sobre cultura, fé e mercado na música pop brasileira.






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