quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Agridoce Capítulo 9

- Devo ter saído de lá por volta das duas da manhã. Acredita que ainda tinha gente bebendo? Em plena quarta-feira?

Rimos juntas.

- Isso é muito comum, Patrícia. - ela dizia enquanto limpava os seus óculos, assim que terminou começou a me encarar - Mas e você? Como se sentiu?

- Eu evoluí, não é? Foi um grande passo eu estar ali - repetia a as palavras do cafajeste do Hugo, até então era a única opinião na qual concordávamos.

- Você acha que foi um grande passo?

- Claro! O meu único problema era o fato de não ter me entrosado com os meus colegas de trabalho. Agora estou no caminho.

- Qual caminho?

- Por que tantos questionamentos?! O caminho que vai alavancar a minha carreira.

- Você percebeu que não respondeu a minha pergunta?

- Qual delas? Você fez tantas.

- A primeira.

- Ah! Seu eu estou bem? - respirei fundo - Como eu te disse, minha mãe já tinha acabado com meu dia, então qualquer coisa que acontecesse após aquela cena horrível, me faria melhor.

- Entendi. Você imagina que poderia ter sido diferente a conversa que teve com sua mãe?

- Não sei. Talvez - eu sabia onde ela queria chegar. Queria me fazer sentir culpada e dar razão para minha mãe - Já aconteceu, já passou e eu não quero falar sobre isso.

- Tudo bem. Então, estar ali te fez se sentir melhor?

- Um pouco, não era o lugar que eu desejaria estar. Mas, pelo menos ali, todos os meus problemas sumiram por algumas horas.

Voltei a olhar para o teto.

- Patrícia, é importante que você esteja em lugares que te fazem bem de verdade. É natural termos que lidar com pessoas com as quais não nos identificamos, mas não se sinta obrigada a fazer isso sempre. Principalmente em seus momentos de lazer.

Suspirei.

- Acontece, que aquilo foi o mais próximo de lazer que eu tive depois de bastante tempo... - "sozinha" disse mentalmente, recordei a discussão com Letícia. Não que eu concordasse com aquela metida, mas de certa forma, senti medo daquela palavra.

- Bem, conte-me. Como foi o seu dia de trabalho, afinal é o motivo pelo o qual está tão tensa.



*****



- Bom dia - Letícia disse baixo assim que entrei no prédio, passei por ela. Ainda não entendia o seu fascínio em ficar circulando pela a entrada recebendo as pessoas como uma cerimonialista.

- Bom dia, tudo bem? - mais um passo, costumávamos a nos cumprimentar apenas com "Bom dia".

- Tirando a ressaca sim - ela estava arrumada, mas não tão bem quanto nos outros dias. Seu esforço para esconder as olheiras era bem perceptível.

- Eu sei como está se sentindo - dei sorriso bem discreto, afinal eu tinha bebido tanto quanto ela mas pude sentir um pouco de seus efeitos - Pelo menos nos divertimos.

- Ah e como! Principalmente você - ela falou e saiu andando para cumprimentar outros funcionários que chegavam. 

Ridícula! O que ela quis dizer com "Principalmente você"?

Chamei o elevador. Entrei com um grupo de pessoas, deveriam ser de outra revista. Basicamente cada andar pertencia a redação diferente, exceto a nossa que ocupava dois por ser a maior e a mais rentável da empresa.

Cheguei ao meu piso. Trocamos risos e segui em direção a minha sala.

Cumprimentei a todos que encontrava pelo caminho. Alguns me saudaram com "Grande noite", "Pronta pra outra?", "Como foi de ressaca?", "Bora marcar mais uma?". As respostas foram as mais mecânicas possíveis: "Ótima noite, precisamos repetir", "Claro, é só marcar", "Minha ressaca? Já tive piores" Basicamente o começo do meu dia foi assim.

Já em minha mesa, abri alguns emails e um deles me chamou a atenção. 

"Prepare-se para a nossa reunião de pauta, momento ideal para debater as suas idéias e seus conceitos..."
                
Parei de ler, mais uma ladainha. A verdade é que fazia um bom tempo que não mudávamos a estrutura gráfica de da revista, eu, pelo menos, não via motivos para fazer isso. Nossas fórmulas sempre deram certo.


Após o almoço iríamos nos reunir para discutir os temas do próximo mês.

Larissa entrou em minha sala, que estava com a porta aberta, saudou Ana e veio até minha mesa.

- Olá! Tudo bem? - falou sorrindo.

- Sim, estou bem. E me recuperei bem da festa sim, antes que me pergunte.

- Eu não ia perguntar isso, mas fico feliz por você.

Rimos juntas. Ana nos observava sem entender o que estava acontecendo.


- Então, vamos almoçar num self-service aqui perto, quer vir conosco?

Como assim? Estávamos virando amigas de uma hora para outra. Do nada ela me convidou para uma festinha em sua casa e depois queria que almoçássemos juntas. Isso estava muito esquisito. Mesmo assim decidi dar corda para até onde iria aquilo.

- Pode ser, só um minuto para eu pegar a minha bolsa. - aproximei dela e cochichei - Posso chamar a Ana?

- Não, nada de estagiários, só efetivos. - ela respondeu baixinho.

Bom, no primeiro de teste de boa samaritana ela falhou. No fundo senti um pouco de pena da minha assistente. Eu nunca fui a favor de nenhum tipo de discriminação e mesmo sendo burra, ela trabalhava como qualquer outro funcionário. Não era justo não participar de momentos mais descontraídos.

Pegamos o elevador. 

- Nós vamos no carro do Arnaldo. 

- Sério que ele vai? - disse animada, não sei porque mas gostava dele - Quem mais nos acompanhará.

- Só a Adriana.

- Ah sim.

Chegamos até o seu HB-20 já ligado.

- Olha a mulher-maravilha veio! - Naldo anunciou,

- Mulher maravilha? - Adriana franziu a testa, estava sentada ao seu lado no carona.

Larissa foi entrando e se acomodando enquanto eu contornava o carro para fazer o mesmo.

- Melhor que Miranda Priestly... - Larissa deu um tapa em sua cabeça, não deveria ter sido tão forte.

- Miranda Priestly? Do filme O Diabo Veste Prada?

Ninguém respondeu. Era claro que eu deveria ter um apelido e com certeza imaginava não ser muito agradável. No fundo, sempre quis saber do que eles me chamavam pelas as costas.

- Bom, foi um grande salto. Virei heroína - quebrei o gelo.

Na verdade, decidi dar corda a todos. Vai ser divertido descobrir o porque dessa aproximação tão repentina.


Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
Terceiro Capítulo
Quarto Capítulo
Quinto Capítulo
Sexto Capítulo
Sétimo Capítulo
Oitavo Capítulo

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Agridoce Capítulo 8



A área do fundo parecia ter sido feita especialmente para receber convidados. Coberta por uma tenda, tinha três mesas de mármore, uma mesa de sinuca e uma bela churrasqueira. O que eu achei nada comum para uma mulher. 

Aproximamos deles. Letícia, como eu já esperava não iria perder essa. Hugo, Adriana, Enrique, Arnaldo, Andressa e Ricardo foram os que eu reconheci. Todos estavam se vestindo casualmente e se sentiam muito a vontade. Eles ocupavam apenas uma mesa, que deveria ter 6 lugares fixos. Os outros, para participar da folia puxaram cadeiras avulsas.

Assim que perceberam a minha presença ali, pararam de rir instantaneamente. Eu já esperava essa reação, não tinha o hábito de me reunir com os colegas de trabalho. Para todos nós aquilo era novidade.

- Pessoal, olha só quem veio... - Larissa anunciou. Eles me fitaram por alguns segundos.

Matheus se levantou, e contornou a mesa para me cumprimentar com um beijo no rosto (até o momento não tinha percebido sua presença.)

Eles lançaram um "oi" coletivo.

- Então pessoal, quero saber porque estavam rindo tanto?! - Larissa perguntou enquanto arrastava uma cadeira próxima para eu me sentar.

Eles continuaram em silêncio novamente.

Eu só esperava que eles não estivessem falando de mim. Não era possível que eu viraria a pauta do momento até fora da empresa. Decidi quebrar o gelo.

- Podem falar! Não se acanhem com a minha presença - agradeci o seu gesto com um sinal com a cabeça e assentei.

- É que o papo era meio picante - Letícia me lançou um olhar provocativo - não sei se você vai querer participar.

- Não se preocupe, eu tenho mais de dezoito anos - devolvi o comentário sarcasticamente.

- Estávamos falando dos sacrifícios que as mulheres fazem pelos homens, na cama - Adriana começou.

- Por exemplo? - perguntei.

- Eles não estavam acreditando que nem sempre transamos por vontade própria - Letícia explicou.

- Todo mundo tem vontade de transar sempre. Isso é natural. Esse papo é frescura - Hugo aplicava sua tese. Sim, eu custei a admitir para mim mesma que o meu supervisor proferiu essas palavras.

 Não é bem assim, senhor Hugo. Às vezes, vamos para cama só para agradar sim. Por exemplo, nós temos algo chamado de menstruação que em alguns casos tira todo o nosso tesão. É que fingimos muito bem - Ela se voltou para mim -  Vai me dizer que você nunca fez isso?

Eu não acreditava que ouvia aquilo. Uma mesa repleta de adultos que mais agiam como adolescentes idiotas. Eu teria mesmo que passar por aquilo? Aonde eu estava com cabeça a ponto de achar que iria me distrair com aquelas pessoas? Minha vontade, naquele momento era de sair correndo. Mas com certeza não pegaria bem.

- Não vai responder? - ela provocou.

Todos os olhares estavam direcionados a mim. Virei meu copo, respirei fundo e atendi ao "pedido".

- Gente podemos mudar de assunto né? Isso é muito íntimo para se discutir - provavelmente Adriana percebeu que clima piorava com a aquele assunto.

- Eu quero ouvir a resposta da Patrícia. Quero saber o que ela pensa disso - Hugo incitou a conversa.

- Sem problemas. Minha resposta é não. E boba de você achar que isso é normal. Nunca transei sem ter vontade, ou simplesmente para agradar um homem. Se ele me respeitar vai me entender. É simples assim.

Cheguei a ouvir um "uau" coletivo. Mas não distingui quem. Matheus era o único que não se pronunciava, não pude deixar de notar sua expressão assim que eu dei a resposta. Por que tanto espanto? 

- Pensando bem eu concordo com a Patrícia -  Adriana virou o restante de sua Heineken.

- A opinião da Adriana não conta! - Arnaldo advertiu - ela é vira-folha, antes da Patrícia chegar estava concordando conosco. 

- Arnaldo acho que a pergunta foi direcionada às mulheres - Ricardo falou sorrindo.

- Querido, sou praticamente uma Lady. E para você, é Naldinho - ele disse tocando o ombro do Ricardo.

- Sai fora!

Todos caíram em gargalhadas. Não contive o riso também. 

Arnaldo tinha um jeito de falar, vestir e gesticular só dele. Magro, deveria ter um metro e noventa. Era difícil imaginar um homem daquele porte vestindo uma calça ultra- colada de cor vinho, mocassim verde-musgo e uma camiseta cor-de-rosa cujo decote terminava quase no umbigo. Já trocamos algumas palavras, mas nada além de conversar curtas.

- Temos uma feminista ao extremo aqui - Letícia retomou - Eu posso te dizer uma coisa com a maior certeza. Esse seu discurso é lindo na teoria, mas não funciona na prática. E cá entre nós, nem é tão sacrificante assim. 

- Depende do ponto de vista Letícia. O que é para ser algo especial, se torna mecânico. Mas se bem que acho que nem todas se preocupam se o momento está sendo especial.

- Patrícia, o importante é saber agradar o seu homem. Se ele não tem em casa, logicamente vai procurar na rua.

- Boba de você que acha que vai segurar um homem com o que tem entre suas pernas.

- Gente! - Larissa deu grito, ela sabia que estava saindo faíscas dali e provavelmente, como estávamos começando a ficar alcoolizadas iríamos explodir a qualquer momento - Está na hora de colocar uma música. O que vamos ouvir hoje?

- Os novatos escolhem - Naldo levantou e apontou para mim e para o Matheus.

- Não sei... talvez um sertanejo? Para animar - ele me encarou.

- E você poderosa?

- Eu só ouço rock, mpb...

- Ai rock não! Deve gostar de Maria Gadú né?

- Sim, claro... - respondi desconcertada.

Larissa pegou seu smartphone, abriu um aplicativo para pesquisar uma playlist sertaneja e conectou-o em seu micro-system.

- Olha Patrícia, vou colocar o sertanejo pra animar e deixar o momento filosófico para quando já estivermos bêbados e só tivermos forças para ouvir algo sentados.

Não gostava muito daquele estilo mas a ela estava tão contagiante que permitiu que eu continuasse ali com aquelas pessoas. Para falar a verdade não foi de todo um ruim. Talvez o meu dia ainda tivesse chance de ser salvo.

Tocaram diversas faixas. Já estava se formando pares para dançar, preferi ficar sentada, desfrutando talvez o meu já quinto copo de Whisky. 

Senti uma mão masculina tocando meu ombro.

- Não vai nem tentar uns passos? - Hugo me puxou bruscamente me fazendo ir de encontro ao seu corpo, me arrastando para uma área mais afastada - Eu te ensino, é só dois pra lá e dois pra cá.

- Eu sei o ritmo, já dancei quadrilha no colégio. 

- Aê Patrícia! - alguém gritou e assoviou, não consegui identificar.

- A dança foi só uma pequena desculpa para conversar com você. 

Sério? Não estava muito afim de conversar, principalmente particularmente. Será que ele não percebeu?

Continuou.

- Fiquei muito feliz com a sua evolução Patrícia. Não imaginava que a dinâmica tinha corrido tão bem. E olha só, até foi convidada para uma social com os colegas de trabalho...

- Não estou te entendendo. Você nem estava na empresa hoje.

- Eu tive que ir em várias reuniões importantes para resolver várias questões de reestruturação da editora. Vão remanejar uns funcionários, demitir outros. Você entendeu a importância de passar uma boa imagem? - ele pegou em minha cintura.

- Claro, claro. - engoli seco, perder o emprego em tempos de crise não era uma boa opção para aquele momento.

- Eu te ajudei te dando um toque a respeito de seu relacionamento  com os seus colegas, mas acredito que eu possa te ajudar muito mais. - ele desceu continuou descendo a mão, era visível a sua condição de embriagado. - Sabe como é né, em tempos de crise é bom ter aliados fortes.

- Eu não preciso da sua ajuda e se você acha que... - empurrei-o gritando, mas Naldo me puxou pelo braço. De onde ele surgiu?

- Vamos dançar Patrícia! - fomos novamente para perto do pessoal, ele continuou falando no meu ouvido devido ao som alto - Eu sei que você se acha a mulher maravilha, mas deixa para salvar o mundo outro dia e não se mete com ele.

- Como assim?! - gritei

- Eu ouvi parte da conversa e foi o suficiente para saber que ele quer fazer uma troquinha básica de favores, se é que você me entende. Se você não quer, faz a educada. Sai de fininho. Não vai querer ter o seu supervisor como inimigo.

- E você está me ajudando porque...

- Isso se chama networking querida, gostei de você e vou adorar te ter como amiga. 

Dei um sorriso discreto, era o comentário mais sincero daquela noite.  

- Vou pegar mais whisky - talvez era o meu último, já começara a trocar os passos e tinha que pegar no volante para voltar para o meu apartamento.

Fui até o balde de gelo e lá estava o Matheus se servindo também.

- Puro? Quer ficar bêbada rápido hein.

- Já ouvi isso hoje. - trocamos risos discretos - Você mal entrou na empresa e já frequenta essas festas.

- Eu gosto de reunir assim. Estava na dúvida se eu viria ou não, até na chegar na conclusão que seria uma ótima oportunidade para conhecer os meus colegas de trabalho.

- Entendo. Apropósito, quero me desculpar pela forma estúpida na qual te tratei. Você me ajudou com a dinâmica e eu pensei que estava me cantando.

- Tudo bem, todo mundo tem dias ruins. Devo ter te pegado de mau humor. Afinal, você detonou a Letícia naquele debate nada sensual.

Rimos juntos e demos um gole em nossas bebidas.

- Aquela conversa foi tão desnecessária. Nem sei porque fiz parte dela.

- Não achei desnecessária, foi a oportunidade que eu tive de te conhecer melhor e ver que além de linda, é mais interessante do que eu imaginei.

Droga, ele me deixou sem palavras. Eu conseguia me desvencilhar do Hugo mas não dele. Como pode uma pessoa te deixar sem resposta logo no primeiro dia que o conheci?

Ele seguiu andando em direção a turma, parou e me encarou fixamente.

- Considere isso uma cantanda.


Primeiro Capítulo
Segundo Capítulo
Terceiro Capítulo
Quarto Capítulo
Quinto Capítulo
Sexto Capítulo
Sétimo Capítulo
[Continua]

sábado, 5 de setembro de 2015

Apologia das letras 7# - Os Melhores Blogs de Literatura


Neste vídeo a autora Gisela Santa dá umas dicas de blogs e sites literários para seguir. Clique na imagem e confira :)