Precisamos cultivar mais feijões - parte 2: O poder do cuidado feminino
Este artigo não é apenas uma homenagem ao Dia Internacional Das Mulheres, é a constatação da necessidade da essência feminina no mundo.
Através de estudos científicos a respeito de características biológicas, as espécies fêmeas na natureza costumam ter características primárias de cuidar, nutrir e proteger. Quando se trata da espécie humana, essas características se afloram também, lembrando que não é regra, é o mais comum.
A questão que nos diferencia também são questões sociológicas e psicológicas. Pois, elas ditam nosso estilo de vida. Sendo assim, muitas mulheres decidiram não seguir fundamentos sociais pré-estabelecidos, optando por outro estilo de vida diferente do que a maioria faz, como por exemplo: a decisão de ser mãe solo. Outra questão importante é a imposição das circunstâncias forçando a uma adaptação a sobrevivência por conta da ausência de presença paterna. Ou seja, as possibilidades e vivências se diversificaram.
O que podemos aprender com as mulheres da ficção?
No filme “Que horas ela volta” vimos a história da mulher nordestina que tomou a decisão de ir trabalhar na casa de uma família paulista para pagar os estudos da filha. A disciplina, força de vontade e conflitos de ideais geracionais são marcantes nesta dinâmica. Com ela, aprendemos a sabedoria para lidar com os impactos das decisões e como não tem idade certa para romper barreiras sociais.
No dorama “Tudo Bem Não Ser Normal” acompanhamos a mulher que não foi ensinada a cuidar, sempre teve uma força de ação e realização maior. Além disso, apesar de todos os seus traumas, seu coração foi se derretendo com a influência de seu pretendente e do irmão dele. A convivência com eles aflora naturalmente o seu lado feminino.
No romance “A Menina Que Roubava Livros”, o autocuidado e a resiliência mostraram-se presentes como ferramenta de sobrevivência. A garota apoiou-se nos livros como um refúgio em meio ao tortuoso período nazista. Apesar de tão jovem ela buscou ferramentas de resistência ao caos.
Percebeu que foram apenas três exemplos de cuidados de diferentes citados?
No primeiro, priorizar o cuidado da filha.
No segundo, descobrir a possibilidade de cuidar.
E no terceiro exemplo, o autocuidado possível.
Existem muitos outros, mas por hoje decidi me concentrar nestes.
A ausência de exercer o cuidar gera prejuízos no desenvolvimento de qualquer pessoa. A praticidade e a força de ação de características biologicamente masculinas se utilizadas em excesso e sem sentimento algum tornam-se violência, truculência e desumanidade. Os homens lideram o número de crimes de violência, abusos e até o de suicídio.
Acredito que esses dados mostram que quando não cuidamos de nossas emoções, características tidas como “coisas de mulher”, estamos mais propensos a desequilíbrios e adoecimento. Grandes pais geralmente foram educados por grandes mulheres, seja mães, professoras, familiares, companheiras. Mesmo não tendo sido criado por uma mulher, o homem que desenvolveu características de cuidado possivelmente inspirou-se em alguma. O filme paternidade retratou essa realidade muito bem. Com a perda da esposa, o pai começa a ter contato e a interagir com outras mulheres para ter ajuda na criação da filha.
Eu tive uma presença feminina muito marcante em minha vida através da minha mãe, madrinhas, amigas e, não menos importantes as minhas professoras.
Se o seu arranjo familiar é tradicional ou contemporâneo o importante é que prevaleça o respeito. Exercitar o cuidado e o autocuidado é dividir as tarefas de forma que não sobrecarregue uma pessoa. Além disso, o arquétipo da “guerreira” não gerou muitos benefícios de forma geral, pois mesmo chegando a um resultado favorável na trajetória de vida de algumas mulheres, o desgaste decorrente desta luta, muitas vezes, impede de contemplar a vitória. Penso que contemplar a essência e a integridade são importantes. Vai muito além que dar presentes:
é o ouvir,
o validar.
Os votos que deixo para todas as mulheres do mundo é que vocês possam se sentir dignas dentro de suas vidas. Sabemos que, muitas vezes, as circunstâncias não permitem que todos os sonhos sejam realizados. Mesmo assim, desejo que apesar de qualquer dificuldade vocês possam ainda realizar o possível com verdade e honra.
Que apesar de toda a pressão social vocês possam manter presente o direito de escolher a vida que faz sentido para ti, que possam se sentir à vontade em serem independentes ou se sentir à vontade em serem providas. E se surgir a decisão de tentar o novo, o recomeço, que ele venha sem culpa e sim como um direito.
Que o espaço da criatividade, do realizar seja possível dentro de suas existências e suas contribuições permaneçam importantes para a sociedade.
Assim como Madre Teresa de Calcutá foi excelente em cuidar, Carolina Maria de Jesus foi verdadeira ao escrever, Dra. Tatiana Sampaio foi genial ao curar, Glória Maria foi precisa ao informar...
Desejo parabéns a todas as cientistas, professoras, advogadas, cozinheiras, zeladoras, empresárias, artistas, médicas, enfermeiras, engenheiras,policiais,socorristas, atletas,
enfim,
Parabéns à Força de Trabalho e Cuidado Feminina.
Obrigado, Tia Taciane, por ter me ensinado a cultivar feijões. Percebi que o processo nem sempre é fácil, mas que esforço em valorizar a vida alheia gera um mundo melhor.
Já falamos de algumas obras citadas acima no blog:
Que Horas Ela Volta?
https://blogcoisastriviais.blogspot.com/2015/10/eu-assisti-que-horas-ela-volta.html
Tudo Bem Não Ser Normal
https://blogcoisastriviais.blogspot.com/2025/09/o-jeito-coreano-de-chegar-ate-joy.html
A Menina Que Roubava Livros
https://blogcoisastriviais.blogspot.com/2014/02/resenha-menina-que-roubava-livros.html
Artigos Relacionados:
A dificuldade dos homens em buscar ajuda: https://academiamedica.com.br/blog/a-influencia-do-genero-na-saude-mental
A ética do cuidado: https://periodicos.ufn.edu.br/index.php/thaumazein/article/view/4499
Cuidado e questões de gênero: invisibilidade, paternalismo, autossacrifício e a crise de cuidados. Entrevista com Ilze Zirbel: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1519-549X2022000300017
Fontes das Fotos:
Que Horas Ela Volta(Escotilha): https://escotilha.com.br/cinema/filme-que-horas-ela-volta-anna-muylaert-critica-resenha/
Tudo Bem Não Ser Normal(Quinta Capa): https://quintacapa.com.br/critica-tudo-bem-nao-ser-normal-netflix/
A Menina Que Roubava Livros(Revista Prosa, Verso e Arte): https://www.revistaprosaversoearte.com/a-menina-que-roubava-livros-um-canto-a-humanidade/






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