Como sobreviver ao Carnaval: Entre a euforia do bloco e a calma do ser



No post anterior, questionamos por que nos sentimos obrigados a esconder a nossa "bad" sob camadas de glitter, mas hoje o papo é prático. Como navegar por esses dias sem naufragar na exaustão? Dando continuidade à nossa reflexão sobre o "Bloco do Tudo Bem", precisamos encarar uma realidade: o Carnaval não é apenas um evento no calendário, mas uma experiência sensorial e emocional avassaladora.

Sobreviver ao Carnaval não significa, necessariamente, trancar-se em casa fugindo da folia, mas sim aprender a calibrar a nossa presença para que a festa seja um complemento da nossa alegria, e não o roubo dela.

Para quem está se sentindo bem, em um momento de "maré alta" emocional, o perigo mora no excesso. A euforia é uma energia contagiante, mas ela pode ser traiçoeira, agindo como um anestésico que nos impede de sentir o cansaço físico e o esgotamento mental chegando. Praticar o "estar bem sem exagerar" é um exercício de autodomínio. 

Em tempo de fotos mirabolantes geradas por inteligência artificial, tecnologias que facilitem a compra de ingressos e meios de acesso cada vez mais cômodos precisamos preservar a nossa humanidade.

Imagine que sua alegria é uma chama: se você jogar todo o combustível de uma vez, terá um incêndio que se apaga rápido, deixando apenas cinzas. Para manter o fogo aceso durante os quatro dias, é preciso intercalar. 




A regra de ouro aqui é a "ancoragem". A cada poucas horas de agitação intensa, busque um momento de aterramento. Pode ser o simples ato de se afastar do som alto para comer algo com calma ou focar na respiração por alguns minutos. 




Essas pausas estratégicas para se recompor são importantes para você se autoavaliar e ver como está o seu nível de embriaguez (caso tenha bebido), o nível de fome e de hidratação. É bom checar o seu cansaço físico e mental em relação a esta festa. Não se preocupe tanto com fotos, pois o check-in verdadeiro de felicidade é como você está no momento e não como pode performar nas fotos e vídeos para os stories/status. 

Para uma comemoração realmente saudável, o segredo é a intenção. Em vez de sair de casa com o peso de ter que viver "o melhor dia da vida", saia com a intenção de apenas estar presente. A saúde mental no Carnaval passa pela honestidade: se o bloco não está legal, por que continuar lá? 

A verdadeira alegria que buscamos só floresce quando há coerência entre o que sentimos e o que fazemos. Se buscamos exemplos de como equilibrar essa balança emocional, a cultura pop nos oferece uma lição valiosa no filme Divertida Mente, da Pixar.



 Nele, vemos que a Alegria (Joy) quase colapsa o sistema ao tentar banir a Tristeza. No Carnaval, ocorre o mesmo: se tentarmos silenciar nosso cansaço ou nossas angústias com mais barulho, o resultado é um vazio profundo na quarta-feira de cinzas. 


Na literatura, o Livro da Alegria, fruto do diálogo entre o Dalai Lama e o Arcebispo Desmond Tutu, nos ensina que a alegria não é o oposto do sofrimento ou do silêncio, mas uma base sólida que construímos através da compaixão e da aceitação dos nossos limites.



E quando decidimos ir mesmo não estando tão bem?


Por fim, há aqueles dias em que a bateria social acorda no nível crítico, mas a pressão do grupo ou o desejo de não "perder nada" nos empurra para a rua. Sair com a bateria baixa exige estratégia de sobrevivência. A primeira dica é o "acordo de saída": avise seus amigos que sua participação tem prazo de validade. 

Tirar o peso da obrigação de ficar até o fim alivia a ansiedade e permite que você aproveite o tempo que tiver com mais qualidade. Além disso, aprenda a ser um "observador participante". 

Há a possibilidade de não se preocupar em ser o protagonista pois nós vivenciamos nas redes sociais a obsessão e o campeonato por curtidas. Esta dinâmica se arrasta para a nossa vida real. Muitos querem ser o centro das atenções numa necessidade de assumir o protagonismo do “rolê”. O lance está em tirar esse peso de si. Em certos momentos, apenas observar e mais ouvir do que falar gasta menos “bateria social” e menos pressão interna para ser “mais interessante”.

Preocupe-se em compartilhar alegria dos outros, curtindo a música e o movimento sem gastar sua energia tentando ser o centro das atenções. Lembre-se: o bloco passa, a música para, mas você continua. Respeitar o seu ritmo é a única forma de garantir que, quando o confete for varrido da rua, você ainda esteja inteiro e em paz consigo mesmo.


Concluímos que o Carnaval passa mais rápido do que imaginamos, e o que realmente fica é como cuidamos da gente durante a festa. O segredo não está em evitar a folia, mas em vivê-la sem a obrigação de ser o “anfitrião” ou de registrar uma felicidade constante. 


Que sua quarta-feira de cinzas seja de descanso e não de arrependimento por ter atropelado seus limites. Respeite sua bateria social, faça suas pausas e lembre-se: a melhor parte da festa é voltar para casa sentindo que você foi fiel ao seu ritmo. 


Afinal, a vida acontece nos detalhes e nas          coisas triviais e, estar bem consigo mesmo é o melhor check-in que você pode fazer.

Já assistiu a live com a Psicóloga Juliana Santos?




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