sábado, 15 de março de 2014

Desejos Ocultos Parte III






- Calma amor, eu posso explicar - comecei a tremer.

- Espero que se explique mesmo - ela me olhava fixamente.

Aproximei me dela e encarei aquele cara com um certo ódio, no fundo, tinha mais ódio de mim. Fraco. Desleal. Eu era pior que ele, porque eu aceitei tudo aquilo? Bastava um simples não e talvez, uns socos. Mas, ela me entenderia? Aceitaria um marido bissexual?

Toquei seu ombro. As palavras saíam sem firmeza. Ele apenas assistia a cena com a mesma cara de deboche.

- Eu te amo mais que tudo. Aquilo foi um erro, eu prometo que vou mudar. Podemos recomeçar.

- Claro amor, justamente por isso o Otávio está aqui - ela sorriu para ele. Não entendi.

- Nunca mais, nunca mais haverá traição entre a gente. Dessa vez, vou te fazer a mulher mais feliz do mundo.

Ela arregalou os olhos e afastou minha mão bruscamente.

- Do que você está falando?!

- Eu não queria contar agora - ele não conteve o riso - mas como dizem, peixe morre pela a boca.

- Seu desgraçado! O que você veio fazer aqui?! - fui em sua direção já com um soco armado mas ele sacou um revólver.

- Quetinho aí  "Senhor Bi". Gosta de histórias Drica? Vou te contar uma - ele fez um gesto para que nos juntássemos.

- Rafael que é história? Do que ele está falando? Por que você falou em traição? - ela chorava desesperada.

Tentei tocá-la de leve para acamá-la mas ela se esquivou.

- Fala logo - ela insistiu - Primeiro ele vem aqui falando que era o seu amigo e iria ajudar a melhorar o nosso relacionamento, agora você fala isso?

- Não me olhe assim. Quem falou foi você. - ele tirou um pen drive do bolso e colocou no aparelho de DVD. Dei um passo para frente mas ele fez um gesto com o revólver. As imagens apareceram, as mesmas que ele me mostrou no escritório.

Ela ficou em choque. Caiu no chão de joelhos. Estática. Pensei que iria desmaiar porque estava pálida. Aquilo me corroía. Queria que ela me xingasse me batesse, mas a reação foi a pior que eu imaginava. Era burrice esperar uma reação melhor que aquela.

- Acho que ela não curtiu - ele falou me encarando - Pena que não filmei nossa noite, não é senhor bi?

Tinha que por um basta naquilo, era como se fosse uma tortura para nós. Foda-se. 

Parti para cima dele. A arma disparou. O som ecoou por toda a casa. Estávamos no chão brigando trocando murros. Ele era forte. Tive que golpeá-lo no estômago mas ele não queria se redimir. Parecia uma dolorosa queda de braço. Ele esticava no máximo para eu não alcançá-la. 

Não sabia qual era a sua intenção naquela noite, mas com certeza, não era boa. Senti alguém me socando por trás. Não era ele. Ela a Adriana. 

Enfim, ela acordou e com ódio. Era cada um por si.Tentei afastá-la, nesse instante, ele conseguiu se levantar mas sem equilíbrio. Aproveitei e empurrei o na mesa de centro e ele deixou cair o revólver. Adriana pegou rapidamente.

Ela tremia e chorava muito. Ouvi um barulho de porta batendo. Fernando entrou na sala.

- Você se deitou com ele também?! - soletrou cada palavra.

- Meu Deus! Drica! O que é isso?

Ela olhou para ele sem desviar o revolver da gente.

- Você também sabia? 

- Do quê? - Felipe me olhava perplexo - O que você fez Rafael?

- O que nós fizemos - Otávio voltou a provocar - Querida, devolve aqui. Isso não é brinquedo para ficar na mão de mulher.

- Esse desgraçado me traiu Fernando e com homens.

- Que pena, daríamos um trio tão legal ou quem, sabe quarteto Fernando.

- Cala essa droga da sua boca! - ela gritou com raiva.

- Você não puxaria esse gatilho - ele se aproximava lentamente dela.

- Chega mais perto e veremos.

- Para com isso Otávio,essa história não precisa piorar - Fernando tentava amenizar - Drica me entrega essa arma.

- Não confio mais em homens - eu não conseguia mais a reconhecer. Nunca a vi assim. No seu limite. Em ponto de ebulição e pronta para explodir.

Otávio estava cada vez mais perto. Corri para puxá-lo. Ela atirou. Senti um forte ardor no braço esquerdo, minha camisa manchou de sangue. Cai no chão. Vi Fernando lutando contra ele, a casa estava sendo destruída. Levantei cambaleando, precisava ajudar meu amigo. 
Tentei arrancar Otávio dele mas não tinha forças. Adriana correu para cozinha, imagino o que ela foi fazer: chamar a polícia. Tinha um telefone lá.

- Merda  - Otávio rangia os dentes e tentava se livrar do Fernando.

- Por favor! Mande uma viatura para rua Otaviano Pacheco, 485... Briga!... Rápido... Por favor...Eu não sei....3....homens

- Hei, Rafael vai buscar algo para amarrá-lo! - Fernando gritou.

- Mas o quê?

- Qualquer coisa que dê nó. Rápido.

Corri para o meu carro, deveria ter a corda que eu uso para emergências. Abri o porta malas, lá estava ela. Voltei para a sala. Tarde demais, Fernando estava caído no chão com um corte na cabeça, tentando se levantar.

Fui para cozinha, ele estava tentando tomar a arma dela. Enrolei a corda no pescoço dele e o puxei com força. Ele a chutou com forte e a derrubou no chão, ela bateu com a cabeça na mesa e desmaiou. Filho da mãe, puxei a corda com toda minha força, ouvi um estalo. Seu corpo desmoronou em cima de mim. Acho que quebrei seu pescoço.

Fui junto de Adriana, ela estava sangrando. O que eu fiz? Tentava reanimá-la, mas nada. Corri para o telefone chamei o Corpo de Bombeiros. A polícia chegou junto com eles. Fizeram os procedimentos necessários e fomos para o hospital. Otávio foi internado, sofreu uma leve fratura no pescoço, devido ao meu golpe. Precisava de aparelhos para respirar. 

Ela respirava. Isso era bom. Meu sangramento foi estancado, por sorte, foi de raspão.

Horas depois, já de madrugada, na recepção o policial me aguardava, depois dali ainda tinha que prestar depoimento. Meu Deus! Como deixei a situação chegar nesse ponto? Nunca vou me perdoar por isso, ela com certeza não merecia. 

Poderia ter acontecido comigo mas não com ela. Destruí nossas vidas por poucos minutos de prazer. Recomeçar dali, era impossível. Fim de casamento,fim de carreira, fim de tudo...

Fui até o policial ele estava quase dormindo.

- Não pode ser amanhã?

- Você precisa nos contar como aconteceu, você e seu amigo – ele bocejou.

- Pelo menos posso ver minha mulher?

- Aham, só não demora muito. Quando ela melhorar, vou precisar do depoimento dela e do outro carinha, se ele viver.

Acredito que vai sim, mas seria melhor se tivesse morrido. Mas daí eu seria acusado assassinato mais crime além do adultério.

- Nesse caso, vou lá.

Ele foi pegar mais café, eu vi pelo menos 7 copos que mandou para dentro. Estava sonolento demais para se importar com algo.



Fernando saiu de uma sala andando lentamente com a cabeça enfaixada. Veio em minha direção.

 - Você está bem? - me perguntou.

- Tou sim, foi de raspão e você? - falei sem olhar diretamente para ele.

- Vou sobreviver. Deu 5 pontos. Aquele louco sentou um negócio que eu nem lembro no meu crânio. Só sei que doeu - ele riu discretamente.

 - Foi a águia de metal que você me deu de aniversário.

- Maldito presente.

Eu quis rir, mas o momento não deixou.

- Eu vou entender se você não quiser mais me ver.

Ele tocou em meu ombro.

- Você poderia ter me contado.

- Você não entenderia.

- Com certeza não. Mas nunca deixaria de ser seu amigo. 

- Sério?

- Eu estou decepcionado com você. Não pelo fato de ser bissexual, mas pelo fato de tê-la traído. Nada justifica isso. Nada. Ela não merecia.

- Eu sei - não aguentei, comecei a chorar. Ele me abraçou forte. Era o único fio de esperança em meio aquela tragédia.

- Conte comigo sempre mano. Agora chega de melação.

Nesse instante a enfermeira chegou.

- Fernando?

- Sim.

- Ela acordou, se quiser ver a sua mulher. Mas tente ser rápido.

- Ela está bem?

- A princípio não encontramos nada grave, mas o médico lhe dará informações precisas.

E agora? Devo ir? Ela não iria querer me ver. Quem iria? Depois de ser traída. De ser humilhada dentro da própria casa. Mas eu quero vê-la, preciso saber se ela está bem. Mesmo que ela me xingue ou me ignore, preciso vê-la. Qualquer coisa naquele momento me confortaria, até mesmo o seu desprezo. Só queria ter certeza que ela ficaria bem. Espero que não piore a situação.

Entrei no quarto. Ela estava frágil, som dos aparelhos era o único ali. Seu corpo estava cheio de hematomas e ferimentos. Aquilo doía em mim. Aos poucos ela foi abrindo os olhos.Virou a cabeça em minha direção e franziu a testa.

- Adriana?

- Quem é você?





4 comentários:

  1. Cara, curti muito vibrei aqui kkk

    http://emmanuel-marques.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
  2. Nossa, muito bom! Amo textos que deixam o final para o leitor pensar.

    Acho que o Rafael deveria ter sido sincero desde o princípio. Mesmo que a verdade doa e tenhamos que enfrentar um monte de coisas ruins por causa dela, ainda é melhor do que mentir. Principalmente quando a tal mentira é dita para alguém que é importante em nossas vidas.

    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. obrigado mesmo de verdade, fico contente que tenha gostado...

      Excluir